Aluguéis de apartamentos nos circuitos custam mais de R$ 20 mil por um período de apenas sete dias
À beira da piscina cheia de amigos e fazendo selfies para publicar nas redes sociais, rotina que pretende manter até quarta-feira de Cinzas, a empresária paulista Priscila Alcântara, 27 anos, é direta: "Carnaval aqui é mais seletivo. Não tem assalto e nem gente encostando em mim". Ao menos nos flats da avenida Oceânica, no bairro de Ondina, em Salvador, ela tem razão.
Com duzentos metros quadrados, bebida à vontade e segurança contratado escoltando todos os cômodos, a alegria dela e dos convidados é assistir aos shows das bandas de axé da varanda-camarote do Costa Espanha, um luxuoso imóvel com três quartos, piscina e outras regalias, em frente ao circuito da folia. "É melhor até do que camarote", diz.
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A folia para Paulo Magalhães e amigos custa caro: começa em bloco e termina em camarote (Foto: Roberto Abreu/CORREIO)
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Alugados por valores que ultrapassam R$ 20 mil no Carnaval por um período de sete dias, imóveis como o que Priscila está hospedada acomodam até 15 pessoas. Eles recebem grupos de jovens que não dispensam o luxo e que estão dispostos a pagar o preço que for necessário pela mordomia, conforme relatam.
"Se atende todas as nossas necessidades, vale a pena, independente do valor. Não existe crise quando a oferta é boa", afirma o médico Marcos Paulo Azevedo, 26, amigo da empresária. A conta para os quatro que estão por lá, segundo eles, deve fechar em torno de 50 mil até o fim da folia.
No Camarote Salvador, o mais badalado do circuito Barra/Ondina, famoso por receber atores globais e empresários milionários, o analista financeiro Cláudio Meireles, 38, calcula que ele e outros três amigos - turistas de Santa Catarina - devem desembolsar cerca de R$ 60 mil em uma semana. Mais da metade desse valor foi para o aluguel na Barra e para os ingressos do camarote.
Para eles, que repetem o esquema pelo quarto ano seguido, a crise não chegou. "No ano passado, demoramos e não conseguimos comprar todos os dias do camarote, mas desta vez deu certo", comemora. O grupo e a conta só não são maiores do que no Carnaval passado porque "uns caras começaram a namorar e caíram fora", segundo afirma um dos foliões do grupo, aparentemente decepcionado.
Pagar R$ 900 pelo ingresso de uma noite no Camarote Villa Mix não pesa no bolso do advogado baiano Hugo Correia, 25. Para ele, em um cenário de recessão que o país enfrenta, as pessoas podem até passar a escolher mais criteriosamente o tipo de diversão e o quanto irão gastar, mas a qualidade do que se oferece fala mais alto do que a economia. "Os shows exclusivos me atraíram, as pessoas aqui são interessantes. Tenho tratamento VIP e me sinto seguro, não me importo com o valor da entrada", diz.
Open bar e all inclusive até o começo da manhã, SPA e shows exclusivos são algumas das mordomias que os foliões listam como atrativos nestes espaços. "O Brasil pode estar em crise, mas não vou deixar de curtir meu Carnaval do jeito que eu gosto", diz a estudante de odontologia Lara Gomes, 18.
Parcelamento
Do outro lado dessa equação, está a turma com orçamento apertado, mas que não pensa em deixar de lado a folia em camarote. A enfermeira Ludmila Nobre, 32, desempregada há oito meses, não sabe muito bem como vai pagar o dia de festa no Camarote Salvador. Ela comprou a camisa por R$ 2.300 e parcelou tudo no cartão. A conta, no entanto, não fecha no orçamento.
Mesmo com aluguel atrasado, a enfermeira diz não se arrepender. "Aqui tem gente famosa e bonita. Selecionada, entende? Não quis passar meu Carnaval no meio da farofa", diz.
Quem também se diz endividada é a psicóloga Renata Rodrigues, 28. Para os cinco dias de ingressos do Camarote Salvador não pesar no orçamento, ela parcelou tudo no cartão de crédito. "Porque daí não mexo na poupança e fica mais leve para mim", explica.
Isopor
Bem em frente ao camarotes onde a crise não bateu, estão os foliões da pipoca - aqueles que não têm abadá de bloco, mas curtem os trios elétricos ao lado de cordas. São os que acreditam que para se divertir na folia não precisam gastar muito.
Nos grupos reunidos no circuito, isopor e cooler não são difíceis de encontrar. Eles abrigam vodca, energético e muita cerveja. Tudo comprado em supermercados e levados afundados ao gelo para a avenida.
"Eles trazem tudo hoje em dia. Cerveja eu já estava acostumada. Mas aí, ontem, apareceu um grupo com hot dog", diz a ambulante Neuza Silva, 45, há 17 no circuito. "A cada ano que passa parece que a coisa fica pior".
Os foliões que levam bebida e comida para o circuito explicam que a recessão encareceu produtos como a cerveja e dizem não temer serem vistos como 'farofeiros'. "Acho que a gente acaba gastando menos da metade do que gastaria se deixasse para comprar as coisas aqui", afirma o publicitário Diogo Martins, 19.
Com biquíni e um pequeno pirulito em formato de coração na boca, a estudante de biologia Laiane Duarte, 22, é uma das que compõe a roda. "Não tem comparação, é muito mais barato. Sem falar que a cerveja que a gente está acostumado a beber não tem no circuito", diz.
O 'open bar' da turma do isopor, porém, faz ambulantes reclamarem da queda no faturamento. A saída para Neuza, por exemplo, que vende um latão de cerveja por R$ 4 e uma caipirinha por R$ 12, foi manter os preços iguais ao ano passado e aceitar o prejuízo.
"Quando não estão bebendo em camarote, trazem de casa. Fica difícil. Nos anos anteriores, eu ganhava mais de R$ 1,5 mil por dia. Hoje, eu não tiro nem R$ 400", reclama.*Correio