Esportes
Jogador deixa o Rio com medo de represálias e nega que tenha sofrido tortura
Em
nota, o Vasco afirmou que o clube nem o jogador vão falar sobre o caso,
"a fim de preservar o bom andamento das investigações"
Agência O GloboAssustado
com o suposto episódio de tortura no complexo de favelas da Maré, o
jogador do Vasco Bernardo deixou o Rio de Janeiro com medo de
represálias. Em entrevista ao Globoesporte.com o jogador do Vasco negou
a suposta tortura.
A
polícia, no entanto, intimou Bernardo a depor como vítima dos
traficantes que o teriam torturado com choques elétricos e socos pelo
delegado José Pedro Costa, titular da 21ª DP (Bonsucesso) na tarde desta
sexta-feira. O jogador, no entanto, adiou a ida à delegacia, segundo
informações do Globoesporte.com.
Wellington
Silva, do Fluminense, que segundo o delegado estaria acompanhando
Bernardo, também terá de prestar depoimento. No entanto, os dois
jogadores só devem depor na próxima semana.
De acordo com o
delegado, o jogador do Fluminense, que é nascido e criado na Maré, teria
negociado a libertação de Bernardo com os traficantes. José Pedro,
porém, disse não ter expectativa de que ele colabore com a investigação.
"É cria da favela, tem família lá", disse o policial.
Bernardo não esclareceu o caso, mas negou que tenha sido torturado
Na
manhã desta sexta-feira, Wellington Silva falou por telefone ao
Globoesporte.com e, segundo ele, não teria encontrado Bernardo na
favela: "Nasci no Complexo da Maré, minha família ainda mora lá. No
domingo, fui visitá-los e me falaram que o Bernardo estava lá. Tinha
tempo que não falava com ele, queria encontrá-lo, fiquei esperando para
ver se conseguia conversar com ele, o pessoal falou que ele estava por
lá. Mas fui embora e ele não apareceu. Ele me ligou depois e disse o que
aconteceu. Eu falei: “Tu é doido, Bernardo?!” Ele disse que ainda
estava muito abalado e depois conversaríamos pessoalmente. Ontem
(quinta), ele me ligou novamente e disse que não sabia porque meu nome
estava envolvido, já que não estive com ele e soube (que era apontado
como salvador de Bernardo) pela imprensa" afirmou.
Wellington
Silva disse que, caso estivesse com o jogador, não teria problemas em
ajudá-lo. Pelo contrário: "Se eu estivesse, seria um prazer dar uma
ajuda, ele é meu amigo. Mas eu nem sabia de nada. Estou assustado, pois
me envolve em uma coisa de que não participei", garante.
Segundo
o Globoesporte.com, o jogador do Fluminense estava visivelmente nervoso
com todo o caso e garantiu repetidas vezes que não encontrou Bernardo
nem atuou como intermediário para salvá-lo dos traficantes.
"Não
teve isso (conversa com traficantes), eu não estava no momento, soube
bem depois, não falei nada com ninguém. Não o encontrei. Deu minha hora e
tinha que voltar para minha casa, no Recreio. Fui embora e não vi o
Bernardo. Ainda quero falar com ele pessoalmente. E acho que o problema
não foi domingo nem segunda, e sim na terça-feira".
Nota do Vasco
Apesar
de o jogador Bernardo negar a suposta tortura, o Vasco da Gama divulgou
uma nota na tarde desta sexta-feira afirmando que vai prestar
assessoria jurídica e psicológica ao jogador. O time disse ainda que não
vai se pronunciar publicamente sobre o assunto, "a fim de preservar o
bom andamento das investigações".
"Em
virtude dos últimos acontecimentos envolvendo o atleta Bernardo Vieira
de Souza, o Club de Regatas Vasco da Gama esclarece que, apesar de
tratar-se de assunto alheio a questão desportiva, oferece todo o suporte
ao jogador, prestando assessoria jurídica e apoio psicológico.
Informamos que tanto Vasco da Gama quanto o atleta não se pronunciarão
publicamente sobre o ocorrido, a fim de preservar o bom andamento das
investigações".
Entenda o caso
No
momento do sequestro, Bernardo estaria acompanhado de mais um jogador,
também criado na Maré, mas que ainda não teve a identidade revelada. No
entanto, foi o nome de Wellington Silva que surgiu na história. Ele está
sendo apontado como o salvador de Bernardo e teria argumentando com os
traficantes que, se o jogador morresse, "a favela teria UPP (Unidade de
Polícia Pacificadora) no dia seguinte". Mas em entrevista ao
GloboEsporte.com, Wellington Silva negou ter encontrado Bernardo no
domingo.
O delegado José
Pedro disse que já ouviu a mulher que estava com Bernardo, Daiana
Rodrigues. "Eu ouvi a namorada e ela não me forneceu maiores informações
sobre o crime. Disse temer por sua família. Vou intimar os dois
jogadores para depor para que eles expliquem o que aconteceu" afirmou o
delegado.
De acordo com o
investigador, a jovem foi baleada com cinco tiros, sendo dois de raspão.
A Secretaria municipal de Saúde, contudo, informou que Daiana foi
ferida com apenas um tiro na perna direita. Ela já passou por cirugia e
foi liberada pelo Hospital municipal Paulino Werneck, na Ilha do
Governador.
Daiana não quis contar aos policiais quem atirou
nela e disse que, caso os agentes insistissem, diria que foi vítima de
bala perdida. Segundo José Pedro, ela não voltou para casa depois de ter
alta. Apavorada, a jovem está escondida e disse que não quer proteção
policial.
Horas antes de
ser levado por traficantes no Complexo da Maré, o jogador participou de
uma feijoada na casa do amigo Evaristo Peres. O atleta do Vasco foi até o
local com amigos, mas sem a atual namorada, Monique Braga. Bernardo
acabou sendo levado por bandidos a mando de Marcelo Santos das Dores, o
Menor P, chefe do tráfico no local, por suspeita de que ele estaria se
envolvendo com a namorada do traficante.
O
casal teria sido flagrado por bandidos da Favela Salsa e Merengue, de
onde foram para uma casa no Morro do Timbau. Lá, teriam sido amarrados
com fita crepe, torturados e espancados. Bernardo também teria levado
choques elétricos e libertado. Segundo informações do Extra, o
traficante pediu desculpas à família de Daiane. Ele teria dito que
atirou nela por causa de uma crise de ciúmes.
Menor P é um dos
bandidos mais procurados do Rio. O Disque-Denúncia oferece uma
recompensa de R$ 2 mil por pistas que levem à prisão do traficante. Ele
teve a prisão decretada pela Justiça a pedido da 21ª DP, depois que
inquéritos da delegacia confirmaram que ele é chefe do tráfico na Maré.
Em
março deste ano, Menor P e outros quatro cúmplices foram condenados a
quatro anos de prisão. Ex-integrante da brigada paraquedista, Menor P se
tornou se tornou um dos chefões do tráfico depois da morte de Márcio
José Sabino Pereira, o Matemático, baleado numa operação policial em
maio de 2012.
Apoio
Prestes a passar uma cirurgia no
joelho, o meia informou o Vasco sobre o ocorrido na quinta-feira. O
diretor-executivo do clube, René Simões, conversou com o apoiador:
"Falei
com o Bernardo há pouco tempo, e a nossa prioridade é dar apoio total
ao jogador. Claro que o Vasco não quer ver seu nome envolvido em
qualquer coisa que não seja da esfera desportiva. Mas entende que o
atleta deve receber suporte do clube em qualquer situação, enquanto os
procedimentos legais são tomados", disse.
René
Simões não quis antecipar se o episódio ocorrido fora de campo pode
resultar em multa disciplinar ao jogador, que tem contrato com o Vasco
até 2015.
"Uma coisa é o contrato de trabalho CLT, a outra é o
contrato de imagem, que no caso do Bernardo não existe. Primeiro é
preciso pensar no lado humano, e depois, no jurídico. Como tomamos
conhecimento hoje, ainda não conversei com os advogados do clube"
explicou.