No
fim da tarde de quinta-feira, 24 de julho, após 16 horas de velório,
foi sepultado, em Recife, o corpo do escritor, poeta e dramaturgo
paraibano Ariano Suassuna, morto na última quarta-feira (23), aos 87
anos de idade, vítima de um AVC. Suassuna defendeu em vida a cultura
popular brasileira como ninguém e produziu romances e peças teatrais.
Um pouco do legado - Suassuna
foi autor de clássicos como “O auto da compadecida”, “A farsa da boa
preguiça” e “A pena e a lei”, firmando-se como um dos maiores autores do
teatro brasileiro, equilibrando erudição e cultura popular. Reconhecido
como uma das grandes vozes do sertão, Suassuna passou infância e
adolescência na pequena Taperoá, na Paraíba, onde se familiarizou com a
cultura da região, interessando-se pelo homem nordestino, seus causos,
costumes e questões — elementos que, mais tarde, serviriam de estrutura à
sua dramaturgia e moldariam seu “mundo mítico”, como dizia.
Em
1960, Suassuna fundou o Teatro Popular do Nordeste, interrompendo sua
produção dramatúrgica, logo depois, para dedicar-se à prosa, à poesia e à
elaboração dos conceitos que estruturaram o Movimento Armorial. Após um
início marcado pela conjunção da comédia de costumes com ritos e
folguedos populares do Nordeste, Suassuna deixou aflorar sua dimensão
religiosa. A educação familiar, cristã, o levou a recuperar o auto
religioso medieval em peças como o “Auto de João da Cruz” (1950), “O
arco desolado” (1952) e, já numa segunda fase, com o “Auto da
Compadecida” (1955-56), que o tornou nacionalmente conhecido. Dois anos
mais tarde, escreveu “O casamento suspeitoso” (1957) e “O Santo e a
Porca” (1957), encenada em São Paulo com direção de Ziembinski, pelo
Teatro Cacilda Becker, em 1958. Logo em seguida iniciou uma investigação
sobre a linguagem do teatro de marionetes e de máscaras, que
influenciaram “A pena e a lei” (1959), encenada cinco anos mais tarde em
São Paulo, com produção de Ruth Escobar e direção de Antônio Abujamra.
As
formas da narrativa oral e a poética sertaneja também influenciaram a
sua escrita dramática. Aos 15 anos, a mudança para Recife o aproximou da
cultura urbana e da literatura dramática mundial, o que o levou a
escrever suas primeiras peças para o Teatro dos Estudantes de
Pernambuco, como “Uma mulher vestida de sol” (1947) e “Os homens de
barro” (1949). Lá, criou o grupo itinerante Barraca, inspirado no mítico
grupo La Barraca, do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936). A
influência ibérica intensificou-se com o aprofundamento na obra do
Século de Ouro Espanhol, com especial admiração pela dramaturgia de
Calderón de la Barca, assim como pela obra do português Gil Vicente.
Entre
1958 e 1979, dedicou-se à criação de dois romances monumentais,
“Romance d’a Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta”
(1971) e “História d’o rei degolado nas caatingas do sertão/Ao sol da
onça caetana” (1976), marcos fundadores do que denominou romance
armorial-popular brasileiro. Inspirado por essas obras, o encenador
Antunes Filho estreou, em 2006, uma adaptação teatral que sintetizou as
mais de mil páginas das duas obras numa montagem de uma hora e meia, que
colecionou aplausos do próprio Suassuna: “Escrevi uma história maluca,
mas o Antunes conseguiu transpor todas as minhas doidices no palco”,
disse, à época.
Na
TV, suas obras ganharam adaptações pelas mãos de diretores como Luiz
Fernando Carvalho e Guel Arraes. Em 1994, a atriz Tereza Seiblitz deu
vida à protagonista Rosa Maranhão na versão da peça “Uma mulher vestida
de sol” (1947) dirigida por Carvalho e exibida como “Caso especial”, na
Globo.
Em
1999, o Nordeste de Suassuna foi transposto para a tela por Guel Arraes
no clássico “O auto da Compadecida”, microssérie de quatro capítulos
com Selton Mello e Matheus Nachtergaele, que viraria filme em 2000. Em
2007, em comemoração aos 80 anos de Suassuna, Carvalho prestou homenagem
ao autor na microssérie “A Pedra do Reino”. Em cinco capítulos, a obra,
escrita pelo diretor com Luís Alberto de Abreu e Braulio Tavares, teve
no elenco Irandhir Santos, Nill de Pádua e Mayana Neiva e foi gravada em
Taperoá.
No
cinema, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias fizeram paródia em adaptação
livre do “Auto da Compadecida”. Dirigido por Roberto Farias, “Os
Trapalhões no auto da Compadecida” foi lançado em 1987. O elenco trazia
atores como Raul Cortez e José Dumont. Com informações do G1/Globo.com