Foto: Reprodução
Um perfil de um jurista falso criado na Wikipédia foi utilizado em
trabalhos acadêmicos, documentários e até para embasar uma decisão
judicial. O perfil do falso jurista Carlos Bandeirense Mirandópolis foi
criado pelos advogados Victor Nóbrega Luccas e Daniel Tavela Luís. Em
entrevista ao site G1, os advogados afirmaram que tudo não passou de uma
brincadeira. A ideia de criar o perfil surgiu após perceberem o hábito
de alguns estagiários de usar informações da internet sem checar a
veracidade. Os advogados pediram a um estagiário que pesquisasse sobre a
teoria da Oferta Pública de Associação, "que não existe". Na Wikipédia,
o jurista é apresentado como educador, filósofo político, compositor e
advogado brasileiro, e com legado e história louváveis. A foto
apresentada do falso jurista é, na verdade, do político austríaco
Michael Häupl. Na descrição, Bandeirense é descrito como um homem que
"marcou época não somente por seus profundos estudos sobre as
associações civis como também por ter sido um incansável defensor da
democracia", e que ocupou a cadeira de direito civil da PUC-SP, entre
1959 e 1968, e que foi obrigado a deixar o país depois da edição do
AI-5. No exílio, ele teria ido para França para lecionar na Université
de Paris e que, ainda exilado, teria sido convidado para a cadeira de
Ruy Barbosa na Academia Brasileira de Letras, mas declinou o convite
declarando: "Como posso ser imortal na terra em que já morri há muito?".
A história do falso jurista ainda envolve o cantor Chico Buarque de
Hollanda e que o personagem teria participado do Comício das Diretas Já,
em 1984, no seu último ano de vida. O perfil foi criado em 2010, mas os
criadores não imaginavam o impacto que o personagem teria. "A coisa
tomou uma proporção que a gente nunca imaginava. Eu esperava aparecer em
alguns blogs, mas não em uma fonte mais séria. Eu gargalhei. Mas, se é
engraçado por um lado, é triste por outro, porque as pessoas não estão
usando a internet corretamente”, disse Victor ao G1. O personagem foi
utilizado para fundamentar uma decisão do Órgão Especial do Tribunal de
Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), de novembro de 2014, que declarou a
constitucionalidade da lei estadual 6.528/13, que determina, dentre
outros, a proibição do uso de máscaras ou de qualquer forma de ocultar o
rosto para impedir a identificação em manifestações. Em seu voto, a
relatora do processo, desembargadora Nilza Bitar argumentou que "as
maiores manifestações deste país foram feitas por brasileiros sem
máscaras, fossem elas de direita ou de esquerda". Entre os apontados
está o Comícios das Diretas Já, no qual consta como participante o falso
jurista.
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