MASCOTE NOTICIAS E BELEZAS NATURAIS: ATENÇÃO: Não fique sem conferir este documentário "O MUNDO É UMA ESTRADA" que conta a história da migração de famílias de Mascote ao início da crise cacaueira...

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11 de outubro de 2016

ATENÇÃO: Não fique sem conferir este documentário "O MUNDO É UMA ESTRADA" que conta a história da migração de famílias de Mascote ao início da crise cacaueira...

"O mundo é uma estrada" é um documentário produzido por Nazza Producoes que aborda a migração baiana para o Espírito Santo, em especial para o bairro Jesus de Nazareth, impulsionada pela crise do cacau (1990). A produção também expõe a relação desses migrantes com a Festa da Padroeira do distrito de Pimenta em Mascote – BA. 

O documentário é fruto de uma pesquisa de mestrado de Douglas Bonella, morador do bairro Jesus de Nazareth. O estudo foi orientado pela professora doutora Aurélia Hermínia Castiglioni, do programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo. - Texto Jéfica teixeira.


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A LAVOURA CACAUEIRA E A CRISE DA VASSOURA DE BRUXA E A MIGRAÇÃO DO TRABALHADOR RURAL

Marcada no imaginário popular por lendas que retratam o passado de extravagâncias dos ricos e famigerados coronéis, imortalizados pela literatura de Jorge Amado, o sul da Bahia luta para recuperar o prestígio de tempos atrás da cultura que moldou a identidade da região: o cacau.

Semanas atrás, um fazendeiro antes considerado rico procurou um amigo, também cacauicultor, para falar-lhe de um assunto delicado. “Estou precisando de dinheiro e confio na nossa velha amizade na certeza de que você vai me ajudar”, disse o fazendeiro. O amigo relatou que se prontificou a emprestar uma certa quantia, imaginando tratar-se de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. “De quanto você precisa?”, indagou, ao que o fazendeiro respondeu, cabeça baixa: “de uns R$ 200. É para fazer a feira semanal lá em casa.”

(Gazeta Mercantil, 12/04/95)

Parece o enredo de um filme de terror pouco verossímil. Primeiro, os preços no mercado internacional despencaram por conta da grande oferta do produto em outros países, notadamente os da África. A natureza também não colaborou, mandando poucas chuvas e castigando as plantações com a inclemência do sol. Finalmente, como golpe de misericórdia, um fungo vindo da Amazônia sabe-se lá de que maneira, conhecido por “vassoura de bruxa”, apodreceu os frutos e sepultou de vez as esperanças de produtores descapitalizados, que ainda contavam com o bom humor da bolsa de Nova York – responsável pela cotação das commoditties – para salvar a própria pele. O resultado não poderia ser mais desastroso: a queda vertiginosa da safra, associada à baixa rentabilidade, atolou fazendeiros em dívidas e desempregou centenas de milhares de trabalhadores.

 


Em linhas gerais, essa é a triste história a que a região cacaueira da Bahia vem assistindo a partir do final dos anos 80. O Brasil respondia até então pela segunda maior produção mundial, atrás apenas da Costa do Marfim. Hoje, porém, as 163 mil toneladas colhidas em 2003/2004, que colocam o país na quinta posição, são insuficientes inclusive para atender a demanda interna. Marcada no imaginário popular por lendas que retratam o passado de extravagâncias dos ricos e famigerados “coronéis”, imortalizados por Jorge Amado em livros como Terras do Sem Fim e Gabriela, Cravo e Canela, essa área que abrange quase 90 municípios no sul do estado, e que abriga aproximadamente 85% de todo o cacau nacional, atualmente luta para combater a vassoura de bruxa e recuperar o prestígio de tempos atrás.


 



A doença que ataca as árvores deixando suas folhas com o aspecto de uma vassoura de bruxa definitivamente redesenhou a paisagem local. Os coronéis que mandavam e desmandavam são praticamente página virada. “A agricultura familiar hoje responde pela maior parte da produção”, afirma Gustavo Moura, diretor da Ceplac. Além disso, muitos trabalhadores rurais desempregados foram obrigados a buscar emprego nas cidades, inchando importantes centros de turismo nas redondezas, como Porto Seguro. Por outro lado, a crise fortaleceu os movimentos que lutam pela reforma agrária e, em certa medida, democratizou o acesso à terra. Diversos assentamentos foram criados em lotes abandonados por grandes fazendeiros falidos. Na opinião de Moura, “a crise também enxugou o perdulário. Só sobraram os profissionais”.  


Mas, sem dúvida nenhuma, a crise que se arrasta dos últimos 20 anos para cá assumiu as proporções mais catastróficas. O preço da tonelada, que chegou a ser negociada a US$ 4 mil no final dos anos 70, atingiu o fundo do poço na primeira metade da década de 90, cotado a US$ 800, o que descapitalizou completamente os cacauicultores. Para piorar a situação, foi justamente nesse período de forte retração econômica que a vassoura de bruxa, detectada pela primeira vez em 1989, no município de Uruçuca, manifestou sua capacidade de devastação. Ninguém sabe ao certo como a doença – que é endêmica na região amazônica – desembarcou no sul da Bahia. Os esporos do fungo podem ter sido transportados nas idas e vindas de fazendeiros que também possuíam roças localizadas no norte do país. Há boatos até de uma ação criminosa, com o intuito deliberado de vingança contra produtores da região. O fato é que em poucos anos a vassoura se espalhou por quase todas as propriedades, curiosamente seguindo o sentido da BR 101, que corta a zona cacaueira. 



“Não havia tecnologia e nem recursos para tratar a doença. Era muito caro em função da estrutura regional, baseada na monocultura do cacau. No início, a única forma de controle era a manual, removendo as partes atacadas das árvores. Mas se um fazendeiro removesse, e o seu vizinho não fizesse a mesma coisa, não adiantava”, avalia o sociólogo Salvador Trevisan, professor da Universidade Estadual Santa Cruz (UESC). O preço dos imóveis rurais também despencou. “Uma fazenda de 150 hectares pela qual o meu avô havia pago US$ 800 mil não valia R$ 150 mil depois da disseminação do fungo. Não vendi por esse dinheiro porque achava uma loucura. Apesar da crise, sempre acreditei no cacau”, conta Gesteira.
 

Até 1985, Botelho e outros grandes fazendeiros não tinham do que se queixar. Era prática comum, por exemplo, que fábricas de processamento de amêndoas pagassem antecipadamente pela produção – como comprar um bezerro na barriga da mãe. Assim, eles ganhavam fôlego para honrar seus compromissos no período conhecido como “paradeiro”, reservado à limpeza e manutenção das roças, que vai de janeiro a abril. De maio em diante, nascem frutos dos pés quase que sem interrupção, mas a safra principal só começa a partir de agosto. “Qualquer outro produto comparado ao cacau trazia um lucro irrisório. Não havia como desviar a atenção”, conta Botelho. Contudo, pouco tempo depois ele sentiria no bolso os riscos implícitos em qualquer atividade de monocultura. Escritórios em Itabuna, apartamento em Salvador, uma fazenda de gado e outra de cacau. De tudo isso Botelho foi obrigado a se desfazer quando a crise, comandada pela vassoura de bruxa, bateu à sua porta.  



A produtividade da São José, sua fazenda em Barro Preto, é um bom termômetro para mensurar o declínio no padrão de vida de produtores de médio e grande porte, assim como ele, desde a fulminante aparição do fungo. Em 1979, de cada um dos 212 hectares do imóvel – onde trabalhavam 120 pessoas – saíam quase 65 arrobas de cacau por ano. Hoje, esse índice não chega a sofríveis 20 arrobas, e a fazenda tem 18 funcionários. Depois de 1985, Botelho foi obrigado a apertar o cinto e abrir mão de carros do ano e de viagens para o exterior. “Não sei da vida dos outros, mas deve haver gente que ficou em situação pior”, avalia.


Estima-se que 200 mil pessoas tenham perdido seus empregos em decorrência da mais cruel das crises enfrentadas pela cacauicultura baiana. Além do previsível êxodo rural, nos últimos quinze anos também se observou uma crescente organização dos movimentos de luta pela terra. Carminha (dona  de pequena terra em Itabuna Bahia) tentou a sorte como empregada doméstica, mas o sonho de tocar o próprio lote lhe deu a motivação necessária para aguentar três anos acampada sob uma lona preta, até que a fazenda Boa Lembrança, em Itabuna, fosse considerada improdutiva e desapropriada pelo Incra. Na parte que lhe coube – seis hectares – Carminha planta mandioca, algumas hortaliças e uma variedade de frutas. Mas só o cacau ocupa metade da área. Com recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), ela comprou três mil mudas resistentes ao fungo amazônico, e espera vê-las produzindo daqui a poucos anos.  







“A lavoura do cacau perdeu sua importância econômica, mas ela tem um papel muito relevante para a geração de emprego e para a preservação da Mata Atlântica”, pondera Gustavo Moura. Esse fruto que moldou a identidade de uma parte expressiva da Bahia parece ter cumprido sua função histórica como importante commodittie e, há quase duas décadas, a economia da região sul do estado atravessa as turbulências que todo sistema baseado na monocultura de exportação está fadado a enfrentar. Porém, de trabalhadores que se transformaram em sem-terra a grandes produtores que ainda resistem à forca das dívidas, todos clamam por uma merecida atenção do governo. Resta saber de que maneira esse socorro virá e a quem ele irá de fato beneficiar. 

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REFLEXÃO

"Por mais que tenha ideologia, em algum momento o historiador deve adotar um grau de imparcialidade, relatando os fatos como aconteceram, sem colocar as suas convicções acima de tudo"