A figurinista Su Tonani, que relatou assédio sofrido nos bastidores da Globo por José Mayer
(Foto: Reprodução) |
O relato surpreendente da figurinista Su Tonani, da TV Globo, sobre o assédio sexual sofrido por José Mayer causou a suspensão do ator, por tempo indeterminado, das produções da emissora. A denúncia foi feita no blog #Agoraéquesãoelas, do jornal Folha de S.Paulo,
na última sexta-feira (31), e chegou a ser tirada do ar, por conta da
gravidade das acusações. Logo depois, foi republicado, com a resposta do
ator.
Nesta terça-feira (4), após ser afastado da emissora, Mayer admitiu o erro, através de uma carta aberta.
"Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude
correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um
reconhecimento público que faço agora", disse em um trecho do texto.
Abaixo, confira íntegra do texto feito pela figurinista, que recebeu o apoio de colegas de emissora - entre elas, atrizes e apresentadoras que já contracenaram com Mayer.
“José Mayer me assediou”
Por Su Tonani*
"Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por
José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta.
Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser
figurinista.
Qual mulher nunca
levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência
do assédio como “brincadeira”? A primeira “brincadeira” de José Mayer
Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela
em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de
violência se iniciou com o simples: “como você é bonita”. Trabalhando de
segunda a sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham
seus “elogios”. Do “como você se veste bem”, logo eu estava ouvindo:
“como a sua cintura é fina”, “fico olhando a sua bundinha e imaginando
seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”.
Quantas
vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem,
e ainda assim – ou por isso mesmo – sentir medo de gritar e parecer
loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres:
“ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar passar,
constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e
maldosas?
Foram meses
envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com
palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar,
que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de
perto. Uma vez lhe disse: “você é mais velho que o meu pai. Você tem uma
filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua
filha?”
A opressão é aquela
que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em
tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crer na falta
de limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes teremos
que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho?
Até
quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria
pedir respeito?
Em
fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras
duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como
garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a
mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas?
Elas, que poderiam estar no meu lugar, não ficaram constrangidas.
Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida,
encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero,
nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.
Mas segui na engrenagem, no mecanismo subserviente.
Nos
próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontrá-lo. Tentando
driblar sua presença para poder seguir. O trabalho dos meus sonhos tinha
virado um pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão
na buceta, nada de pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a
coisa mais distante da sanidade que eu tinha vivido.
Até
que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no
centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si,
prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo,
ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu
não silenciei.
“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?
Chega.
Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui
ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao departamento que cuida dos
atores. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o
assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. Contei que tudo
escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos, forças para estar
ali. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu tomar
as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que lei
fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?
Sinto
no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas
antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por
todas as vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso
amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só
porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente
acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com
contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem,
produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra,
sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será
que vão me contratar outra vez?
Tenho
de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E
me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar.
Precisamos mudar a engrenagem.
Não
quero mais ser encurralada, não quero mais me sentir inferior, não
quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não quero ser
invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.
Falo
em meu nome e acuso o nome dele para que fique claro, que não haja
dúvidas. Para que não seja mais fofoca. Que entendam que é abusivo, é
antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É crime.
Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e
a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que
entendam que não passarão. E o que o meu assédio não vai ser embrulho de
peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito
tempo."
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