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10 de novembro de 2013

Notícias:Minha vida daria um filme: a trajetória da mulher que, de gari, virou prefeita

"Desde fevereiro deste ano, sou diretora Técnica da Escola de Serviço Público do Espírito Santo, que treina mais de 12 mil servidores anualmente"


Ainda criança, em Mesquita, interior de Minas Gerais, ela já revelava-se forte. Filha de um pequeno agricultor e de uma dona de casa, terceira entre 12 irmãos, Madalena Santana Gomes, certamente, não imaginava que chegaria tão longe. Aos 18 anos, casada, deixou a roça e veio para a periferia da Serra, onde de gari chegou a prefeita da cidade. Numa trajetória de desafios e luta.

Quando nasci, há 49 anos, Mesquita tinha só 1.500 habitantes – hoje tem 6 mil. Meus pais tinham uma terra que não dava muita coisa, e a gente plantava o que comia. Éramos 12 irmãos.

Aos 12 anos, parei de estudar na quarta série, e fui morar com meus avós. Lá, dava banho na minha bisavó, que tinha 98 anos, cozinhava, cuidava da horta. Plantava alho, vendia, e assim podia comprar uma roupinha nova.

Casei-me com um primo aos 18. Era 1982, e vim morar na Serra. Meu marido era eletricista – trabalhava no canteiro de obras da antiga CST. Para aumentar a renda, passei a lavar roupa para a vizinhança.

Dois anos depois – meu filho tinha um mês de vida –, meu marido ficou desempregado, e fui à Prefeitura da Serra procurar emprego. Consegui uma vaga de gari. Era a mais jovem do grupo. Trabalhei um ano na rua, de 8 às 18h.

Minha irmã cuidava do meu filho, eu chegava em casa à noite, lavava, cozinhava. Mas o serviço era pesado, sob o sol.

Atuava na Pastoral da Criança, e na igreja ouvia o padre dizer que a gente tinha que estudar. Entrei na escola, à noite, em 1986. Antes disso, deixei de ser gari e fui ser merendeira. E quando terminei o ensino fundamental, fui trabalhar como auxiliar de secretaria numa escola.

Nesse período, com quatro anos de casamento, meu marido tornou-se dependente de bebida alcoólica, e muito agressivo. As brigas eram constantes. Eu o levava a psiquiatra, mas ele não seguia orientação médica.

Decidi me separar – dessa fase não gosto de lembrar. Pedi que a família do meu marido cuidasse dele, e os ajudava financeiramente para que ele pudesse se tratar.

Meu filho tinha, então, seis anos, mas mesmo tendo passado por tudo, tornou-se um homem maravilhoso. Hoje, tem 28, é muito responsável, preside o Iases (Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo) e não bebe! Cresceu gostando do pai, que depois de 20 anos, parou de beber.

A vida era difícil naquela época. Eu trabalhava, e meu menino ia para a escola sozinho, e, em casa, esquentava a comida. Muitos colegas dele envolveram-se com criminalidade e morreram.


Eu participava de tudo na comunidade. Arranjei outro emprego, na Fibrasa, das 14 às 22h, como auxiliar de copa e cozinha, para ajudar no tratamento do meu ex-marido. E aí, tive que parar de estudar.

Mas, três anos depois, ele saiu do hospital, e eu puder voltar à escola. Fiz magistério e, em 1992, passei em um concurso público para assistente administrativa da Prefeitura da Serra. Deixei de estudar de novo, para trabalhei em dois horários – agora também como auxiliar de secretaria escolar.



 Vitor Jubini - GZ
Madalena Santana conta a sua história desde que chegou ao Estado
 vinda de Mesquita, interior de Minas Gerais

Quando saí dessa escola, entrei na faculdade de Pedagogia. Comprei um terreno e construí uma casa com ajuda dos meus irmãos. A vida foi melhorando, aos poucos.

Trabalhava muito, mas sempre fui ligada aos movimentos sociais, à formação de casais e como catequista, na Igreja Católica. Meu envolvimento com a cidade sempre foi grande.

A Serra tinha muitos bairros pobres, e o desmando do poder público era enorme. Lá, teve até prefeito que governava com revólver em cima da mesa...

Em 1990, atuando no Orçamento Popular, me tornei conhecida. Reivindicava obras, mobilizava comunidades.

Na gestão do Audifax Barcelos, fui secretária de Defesa Social. Depois, Sergio Vidigal se candidatou, de novo – eu já era filiada ao PSB –, e me chamou para ser sua vice-prefeita. Tive medo, mas aceitei o desafio, lembrando do que meu pai me ensinou: que devemos zelar pelo nome da gente.

Fui secretária de Desenvolvimento Econômico e, de julho a outubro de 2012, prefeita da Serra, em substituição a Vidigal. Mas agora eu gosto tanto de não ser detentora de mandato. Não nasci para isso.

Desde fevereiro deste ano, sou diretora Técnica da Escola de Serviço Público do Espírito Santo, que treina mais de 12 mil servidores anualmente.

Precisamos de qualidade na gestão, de atendimento de excelência, e de que seja banida a corrupção. Sabe, sempre pensei que cada um de nós tem o dever de colaborar para a mudança de vida de todas as pessoas, não só a da gente.



Fonte: A Gazeta

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REFLEXÃO

"Por mais que tenha ideologia, em algum momento o historiador deve adotar um grau de imparcialidade, relatando os fatos como aconteceram, sem colocar as suas convicções acima de tudo"