Pequena crônica.
“Avé! Avé! Avé, Maria!”, a cantilena ia seguindo pelas ruas até a praça central da cidade. O Prefeito seguia à frente do cortejo, constrito e engomado, logo atrás do Padre que levava uma espécie de castiçal, que o cronista não sabe declinar o nome por ser um infiel. Ao lado do alcaide, um militar com farda de gala, o dono do “Sacolão” e três senhoras, cada uma delas carregando um rosário e bem compostas em vestidos domingueiros.Cada um dos homens ia submerso em suas procupações mundanas, enquanto a cantilena subia aos céus para a glória do Senhor.
O padre pensava que bem poderia o Bispo mandar cancelar a missa da noite, ou bem podia levar o Senhor uma daquelas seis ovelhas que seguiam logo atrás, que isso traria o mesmo resultado do cancelamento da missa, para aplainar a preguiça de preparar homilia e sermão. Além, é óbvio, de ser uma oportunidade de degustar uns biscoitinhos, seja na casa de um dos seis que seguiam atrás, se o cancelamento viesse por força de decisão do Bispo, seja no velório de qualquer deles, se o cancelamento viesse por força de decisão divina, pois tanto faz comer de festejo ou de luto, desde que seja da vontade de Deus ou de um seu representante direto. Com essas teologias ia se entretendo, enquanto levava o castiçal pesado.
O Prefeito ia pensando que o quantitativo de gente presente à procissão de Nossa Senhora do Desterro estava bom, e que ele se certificou de que todos o viram à frente do séquito, tendo demonstrado, durante todo o percurso, a um tempo, fé e simpatia, o que lhe asseguraria a manutenção dos votos da parcela católica da população. Mas, pensava consigo, na semana seguinte compareceria ao culto de aniversário da Primeira Igreja Batista, pois o pastor Francisco gostava de sentir o prestígio de que gozava o seu templo nos dias comemorativos.
O dono do “Sacolão”, que era como o povo chamava o único supermercado da cidade, fazia, por alto, contas. Mas não qualquer conta. Eram contas para verificar se valia a pena abrir a nova filial no Distrito. O Distrito cresceu, já tem farmácia, padaria, mercearia, posto telefônico e “lan house”. O dono da farmácia tinha mesmo falado que durante dois meses chegou a vender mais medicamentos de uso contínuo lá do que na sede. Claro, seria um mercado menor, com metade dos funcionários, mas valia a pena o risco?
Em que pensava o Capitão? Em quando o Governador iria assinar as promoções. Assim que isso ocorresse, ele pediria para integrar a reserva remunerada, pois quando se vai para a reserva, embora o posto continue a ser o mesmo, o soldo passa a ser o do posto imediatamente acima. Assim, ele, Capitão, iria virar Coronel e receberia como Major. Daria para pagar a faculdade de Odontologia que o filho tanto queria na Capital do Estado e, de quebra, livrar-se da vergonha que sentia de manter aquele pederastazinho na cidade, efeminado como só. E, de repente, olhou para a esposa ao lado, pois lembrou-se que a culpa era dela e da família dela por isso, uma família de fracos, que só sabe fazer política e nunca teve outra ocupação. Está no sangue, pensou. Olhou para os cunhados, o Prefeito e o Padre, e olhou para a esposa do dono do “Sacolão”, um pouco arrependido por não ter dado curso àquele namorico da juventude que teve com ela. Mas pudera! Se não tivesse que ir fazer o curso de Oficial, nunca sonharia em receber como Major, como agora. Olhou novamente para o Padre, pensou que Deus escreve certo por linhas tortas, lembrou-se da procissão e da fé e seguiu com o coro: “Avé! Avé! Avé, Maria!”
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