Dançando e cantando, Onôfre chama a atenção
em um ponto de ônibus no Rio Vermelho
Basta um simples "Hola! Hola!" para Onôfre roubar a cena aonde chega.
Quem já cruzou com ele nas ruas da cidade, escutou suas músicas na
internet ou o viu em alguma aparição na TV, provavelmente caiu na
gargalhada ao se deparar com a performance de um argentino inocente,
contagiado pela onda do arrocha na Bahia.O rebolado sensual, exagerado e meio desengonçado, somado a expressões que não saem da boca do povo, como "seu pombo sujo", atestam que o personagem está se esbaldando por essas bandas.
O sotaque portenho com o tradicional chiado dos hermanos e a vibração da letra "r" são marcas essenciais do tipo caricato, cuja procedência confunde até mesmo os conterrâneos autênticos.
Onôfre, o Argentino do Arrocha, é apenas um dos personagens criados pelo ator baiano Gabriel Bandarra no sobe e desce dos coletivos de Salvador. "Nunca fiz teatro, sou ousado, gaiato. Na escola, meu apelido era calundu, porque adorava discutir com os professores e fazer rimas sobre os colegas", lembra.
Depois de uma oficina de palhaço com Alexandre Casali (O Sapato do Meu Tio), aos 18 anos, Gabriel tomou coragem para mostrar seu talento como artista de rua nos ônibus. "Até hoje, o difícil é subir no primeiro ônibus. Depois a coisa engrena e você não quer mais parar", explica, aos 25 anos, o ator formado na rua.
Arte de rua
Nos dias de trabalho mais pesado, em geral quando o aluguel estava prestes a vencer, ele se dedicava por mais de oito horas aos coletivos."Já cheguei a fazer R$ 500 num dia, trabalhando desde cedo até a noite. Se trabalhar mesmo, a gente consegue se sustentar. Tudo hoje na minha vida é fruto do trabalho de rua", afirma.
Vídeo mostra o Argentino do Arrocha cantando e dançando em um coletivo
Atualmente, Bandarra diminuiu o ritmo da atividade na rua e tem se dedicado a shows de humor em festas e eventos corporativos. "O artista de rua é mais corajoso e generoso porque não espera que as pessoas vão até ele. Mas muita gente ainda tem uma visão marginalizada da coisa, de que um é pedinte. Eu vejo como um serviço de extrema importância", defende.
No caminho da arte, ele encontra tanto a generosidade do público, quanto o desprezo dos que não compreendem seu trabalho. As situações negativas ele leva com o mesmo bom humor que agrada a maioria.
"Em geral, a receptividade é boa. Já ganhei R$ 50 de uma pessoa em um ônibus, R$ 100 em um restaurante. As pessoas que valorizam, valorizam mesmo. Mas também muita gente já se incomodou comigo, não quis nem saber o que eu tenho a dizer".
Para o ator, a conscientização sobre a passagem do chapéu (ou, no caso dele, da pochete) é também um aspecto importante da rotina do artista de rua.
Outros personagens
O primeiro tipo criado por Gabriel Bandarra, há sete anos, foi Zé da Mala, que até hoje circula nos ônibus da orla e da avenida Paralela.
Com um humor suave e uma grande mala a tiracolo (comprada num brechó por R$ 3), Zé fala dos bairros da cidade entre poemas de Drummond, Clarice Lispector e Mario Quintana.
"Gosto da coisa mais direta, de poesias que cheguem nas pessoas. O artista tem que atingir seu público", afirma Bandarra, que se matriculou na faculdade de letras, mas abandonou quando a mulher ficou grávida, poucos meses depois.
Clipe conta com a participação de Margareth Menezes e Luiz Caldas
A criatividade do ator também deu vida a personagens como Pivete Willys (o Valdisnei) e Juraci (o locutor da fé).
O ator Felipe Mago, quem Gabriel conheceu atuando na rua, é um admirador do trabalho do amigo. "Esses personagens são muito bons. Foram criados na experimentação. Eles agradam a todos", afirma Mago.
Com seus personagens, Gabriel vem conquistando fãs por onde passa, inclusive famosos. O segundo clipe de Onôfre, por exemplo, contou com a participação especial de Luiz Caldas e Margareth Menezes.
Fonte:Luciano da Matta | Ag. A TARDE
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