Na mesa do futuro gerente administrativo, problemas não faltarão
Ex-gerente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o agora condenado
por corrupção José Dirceu poderá exercer seus talentos de “capitão do
time” para administrar os problemas de seu novo emprego no hotel Saint
Peter, em Brasília. Muito diferente da sala no 4ª andar do Palácio do
Planalto, com vista livre para a Praça dos Três Poderes, o novo
endereço do ex-ministro será um espaço no subsolo do hotel, em um
corredor mal iluminado próximo à garagem.
Na mesa do futuro gerente
administrativo, problemas não faltarão. Ainda assim, nada se compara a
uma cela do sistema penitenciário de Brasília, de onde poderá sair
todos os dias por nove horas. Se José Dirceu realmente se envolver no
dia a dia do Saint Peter, terá que lidar, por exemplo, com as
constantes reclamações dos hóspedes sobre a lentidão no serviço de
balcão e a confusão no café da manhã, com constantes problemas de
manutenção e com uma reforma que, apesar de já durar dois anos, não
parece ter melhorado muito a qualidade do hotel.
Nas diárias, o Saint Peter se compara a outros
hotéis de luxo de Brasília. Um quarto em um dia de semana custa em
torno de R$ 300 - menos em sites de descontos, bem mais na tarifa de
balcão. No entanto, não oferece alguns serviços básicos. Garagem, por
exemplo. Localizado na área central de Brasília, o Saint Peter tem como
um dos seus pontos fortes a proximidade com a Esplanada e a área
comercial da cidade. Justamente por isso, à sua volta não existem vagas
públicas.
Na chegada ao hotel, o hóspede de carro pergunta
aos quatro porteiros onde, então, pode estacionar. A resposta é um dedo
apontado para o outro lado da rua, em um arremedo de estacionamento,
pago. Ao descer, ouve o grito, de longe: “moça, tem mala para
carregar?”. Uma recepção não muito promissora. A reportagem do Estado
se hospedou no hotel. Um prédio de 30 anos, construído pelo então
deputado Sergio Naya, já falecido, e leiloado em 2004 para pagar as
indenizações às vítimas do desabamento do edifício Palace II,
construído pelo ex-deputado, o Saint Peter enfrenta uma reforma geral
há dois anos.
Hoje, estão fechados o quarto andar, a sauna e a
academia. Mas, nos andares onde a reforma já passou, o resultado não é
muito animador. No corredor, escuro, o carpete cheio de manchas parece
ter muito mais do que dois anos. O quarto usado pelo Estado ainda tinha
as etiquetas do fabricante dentro do armário, mas a tranca da porta da
sacada estava quebrada, quinas do piso de granito estavam lascadas e as
lâmpadas eletrônicas enfiadas no lugar de spots dão um certo ar de
desleixo.
Mais do que isso, a cama de casal minúscula, o ar
condicionado central, antigo, sem controle de temperatura, a tevê a
cabo com pouco mais do que o mínimo de canais e o chuveiro, elétrico,
fazem duvidar do valor cobrado na diária. No saguão do hotel a reforma
começa em dezembro, de acordo com os funcionários. Apesar de
razoavelmente bem cuidado, espelhos de tomadas e do botão de elevador
faltando mostram a dificuldade com a manutenção do hotel. Ainda assim,
não faltam hóspedes ao hotel.
Como a maioria dos estabelecimentos em Brasília,
consegue ter uma lotação acima de 80% nos dias de semana, na época em
que o Congresso está em sessão. Também se dá ao luxo de manter no
cardápio um misto quente por R$ 18, uma fatia de pudim pelo menos
preço, um frango grelhado por R$ 39,90 e um salmão grelhado por R$
49,90 - preços que quase tornam factível o salário de R$ 20 mil
anotados na carteira de trabalho de José Dirceu.
Entre seus futuros colegas, ninguém sabe exatamente
o que Dirceu vai fazer. Alguns gerentes não negam que mão-de-obra
extra seria bem-vinda em um hotel de mais de 400 quartos, mas nem a
direção do grupo Mundial, dono do estabelecimento, nem a gerência geral
se deram ao trabalho de explicar qual será a função do novo empregado.
Sua suposta sala também não está pronta. No subsolo do hotel, onde
deverá trabalhar, o ex-deputado não terá direito a maior vantagem do
Saint Peter, a sua vista livre para a Esplanada dos Ministérios.
Lá embaixo, onde ficam os escritórios - com exceção
do comercial, que está no mezanino - há uma cozinha, salas de
equipamentos, uma sala de lazer para os funcionários e a garagem, hoje
ocupada por material de construção. Mas, pelo menos José Dirceu sairá
às 17h - horário limite para poder voltar à Papuda, pelas normas do
regime semiaberto - e sairá antes de ver uma das desvantagens do local:
a zona de prostituição e venda de drogas que se forma na região ao
cair da noite.
Fonte:correio24horas
Nenhum comentário:
Postar um comentário
COMENTÁRIOS: