Líderes aliados e da oposição dizem que reforma
política é prerrogativa parlamentar
Pessoas
assistem entrevista de Dilma em bar na Lapa - Marcelo Carnaval / O Globo
BRASÍLIA
E SÃO PAULO — A ideia da presidente Dilma Rousseff de dar a largada em seu
segundo mandato com um plebiscito para a mudança do sistema político já
enfrenta reação do Congresso, a começar por partidos da base aliada do governo,
entre eles o PMDB. Tanto na Câmara, como no Senado, os líderes peemedebistas
defendem a reforma política, mas insistem que a tarefa é do Congresso Nacional
e que o ideal é submeter as propostas a um referendo popular, pela complexidade
do tema.
Dilma propôs na campanha o fim do financiamento empresarial de campanhas e das coligações partidárias nas eleições proporcionais, a tipificação do caixa dois em crime eleitoral e a realização de um plebiscito para a mudança do sistema político. Além destes temas, a presidente enviou uma mensagem ao Congresso propondo cinco pontos a serem submetidos à consulta popular: forma de financiamento das campanhas eleitorais; definição do sistema eleitoral, se voto proporcional ou distrital; manutenção ou não de coligações proporcionais; continuidade ou não da suplência de senador; e fim ou não do voto secreto no Congresso. Esse último ponto foi aprovado por deputados e senadores, que acabaram com o voto secreto para cassação de mandato. O plebiscito foi engavetado.
Na
segunda-feira, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) divulgou
nota defendendo a reforma política, mas não por meio de plebiscito.
“O melhor caminho é o Congresso Nacional aprovar a reforma — caso contrário
poderá pagar caro pela omissão — e submetê-la a um referendo popular, como
fizemos com a proibição de venda de armas e munições”, defendeu Renan.
O líder
do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), diz que aguarda para ver quais perguntas
Dilma fará, mas destaca que os novos parlamentares eleitos têm tanta
legitimidade como ela.
— A presidente
quer substituir o Congresso e propor o plebiscito, mas é bom lembrar que o
Congresso foi eleito agora e é tão legítimo para legislar quanto ela é para
governar — afirmou Cunha, que também defende o referendo popular e a aprovação
de uma reforma política antes de setembro do próximo ano: — A reforma política
é urgente. Ninguém aguenta mais a eleição do jeito que está, cara demais. Temos
que conter a proliferação de partidos.
O
deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), que participou ativamente do grupo de reforma
política da Casa, diz que propor plebiscito sobre reforma política é algo
inviável.
— É
impossível, é demagógico, é manifestação de ignorância no sentido lato. Como
submeter a proposta de voto distrital, distrital misto, proporcional, etc, à
população? A divisão que existe no Congresso estará presente na sociedade. É um
assunto complexo e longe do cotidiano das pessoas. Cabe ao Congresso encontrar
propostas e submetê-las em referendo — disse Pestana.
Eleito
senador por Goiás, Ronaldo Caiado (DEM) também critica a proposta de Dilma,
classificando-a de “gesto de enganação”.
— O que
me chamou a atenção foi que a reforma política proposta por ela é um engodo,
uma farsa. Não sinaliza com nada concreto e só inviabiliza o processo
verdadeiro para que consigamos aprovar a matéria —argumentou Caiado.
— Esse
processo (consulta popular) é essencial para a reforma política. Muitos setores
têm como base (da reforma política) a proibição de contribuições empresariais na
campanha. A partir da reforma, só seria possível, contribuições privadas
individuais; não empresariais. A oposição fala muito em fim da reeleição. Tudo
isso tem que ser avaliado pela população.
Durante a
entrevista, a presidente foi lembrada que já havia prometido uma consulta
popular para reforma política em junho de 2013, após os protestos que ocorreram
nas principais cidades do país. Dilma foi questionada o que a levaria a
insistir na proposta, embora tenha enfrentado críticas de juristas e congressistas.
A presidente argumentou que, no decorrer da campanha, ouviu esse pedido de um
“conjunto de segmentos” e que ele representa “um grande clamor da juventude”.
— O
Congresso vai ter sensibilidade para perceber que isso (consulta popular) é uma
onda que avança. Se não estou enganada, (os movimentos sociais) captaram mais
de cinco milhões de assinaturas.
O
presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse ontem que o Congresso, sem a
pressão da sociedade, não conseguirá realizar a reforma política como propõe a
presidente e o próprio partido.
— A
movimentação muito forte, que surgiu nas últimas semanas, assim como aquelas
manifestações de junho do ano passado, precisam estar na ordem do dia. E nós,
como partido que tem relações com os movimentos sociais, só vamos obter a
reforma política com essas mobilizações. Só pelo Congresso Nacional, seja na
configuração atual, seja na futura, será praticamente impossível — disse
Falcão, em entrevista coletiva para analisar a quarta vitória consecutiva do
partido para presidente da República.
Ele disse
que o PT defende a reforma política a após um plebiscito para convocar uma
constituinte exclusiva que trate das reformas.
— Já
existe uma proposta da presidente Dilma no Congresso Nacional com 189
assinaturas para que possa ser elaborado o decreto legislativo que convoque o
plebiscito. Uma das questões que estão sendo propostas pelos movimentos
sociais, e não pelo governo, é se você concorda ou não com uma constituinte
exclusiva para fazer a reforma política. Mas tudo isso é passível de diálogo
com o Congresso Nacional. Você pode fazer um plebiscito que não preveja a
convocação de constituinte. Você pode submeter determinados temas a plebiscito.
Tudo isso é objeto de debate. A presidente disse ontem (anteontem) que quer
dialogar muito com a sociedade. Creio também que sobre a reforma política ela
vai dialogar.(O/Globo)

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