Reformas radicais do governo Mujica reduzem popularidade da esquerda e fortalecem oposição
O presidente do Uruguai, josé Mujica, chega de fusca para votar em Montevidéu neste domingo (26) (Foto:Natacha Pisarenko/AP)
BUENOS AIRES — Depois de dez anos no poder, a Frente Ampla (FA) do Uruguai vive um paradoxo: as reformas e políticas de seus dois governos renderam ao país admiradores no mundo inteiro; entre os uruguaios, no entanto, as críticas proliferaram e levaram à perda de votos, ao ponto de ameaçar a vitória do ex-presidente Tabaré Vázquez, que, aos 74 anos, buscará um novo mandato de cinco anos após passar o cargo a José Mujica — no Uruguai não há reeleição.
Há um ano, a continuidade da esquerdista FA no poder parecia ser uma certeza. Nos últimos meses, porém, o crescimento do candidato do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, de 42 anos, surpreendeu o governo e obrigou Vázquez a fazer uma campanha mais agressiva. A lista de iniciativas de vanguarda da FA, entre elas a legalização da maconha, do casamento gay e do aborto e profundas reformas em matéria de tributos e saúde, não ampliaram o respaldo ao governo. Pelo contrário. Segundo analistas locais ouvidos pelo GLOBO, várias das mudanças aprovadas nos governos da FA provocaram tensões e terminaram afastando eleitores, principalmente das classes média e média alta.
De acordo com as últimas pesquisas, no primeiro turno da eleição presidencial Vázquez deverá ser o candidato mais votado, com entre 43% e 46%. Lacalle ficaria em segundo lugar, com entre 32% e 34%. Já o candidato do Partido Colorado, Pedro Bordaberry, obteria em torno de 15%. Com este resultado, a FA perderia o controle do Parlamento e enfrentaria um cenário complicado no segundo turno, marcado para o dia 30 de novembro.
— A chance de a FA perder a eleição é real. No segundo turno o mais provável é um acordo do Partido Nacional com os colorados — diz Eduardo Botinelli, da empresa de consultoria Factum.
Segundo ele, o Uruguai tem essa imagem de país inovador somente no exterior.
— Aqui algumas reformas não foram bem vistas por muita gente. Mais de 50% da população não aprovou a legalização da maconha, não sei se por isso deixarão de votar em Vázquez, mas contribuiu para criar um clima de insatisfação que hoje prejudica a FA — explicou Botinelli.
A reforma tributária foi amplamente rechaçada por profissionais de classe média que passaram a pagar mais impostos durante os governos da FA. Já a reforma da Saúde, que ampliou o acesso a centros de saúde públicos e privados, também foi questionada por setores de classe média, que consideram que a qualidade do serviço nas clínicas privadas deteriorou-se pelo excesso de pacientes.
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— Alguns setores da sociedade se sentem injustamente prejudicados, embora concordem com o sentido das leis — afirmou o diretor da Factum.
Uma das jogadas mais bem sucedidas do jovem Lacalle foi ter elogiado políticas da FA e assegurado que não modificará “as coisas que foram bem feitas”. Sua campanha buscou, na opinião do analista Jorge Lanzaro, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade da República do Uruguai, “mostrar uma direita sem dentes, uma direita light, que acabou atraindo muitos eleitores”.
— A perda de votos da FA não surpreende, é uma tendência de longo prazo e que se observa, principalmente, nos eleitores de centro — diz Lanzaro.
Para ele, “a legalização da maconha provocou muito debate e mal-estar”.
— A direita não gostou, mas esse não é o problema, porque a direita nunca votaria na FA. O problema é a crítica da classe média, dos eleitores de centro, que votaram na FA nas duas últimas eleições e agora se sentem frustrados — opinou Lanzaro.
Desgaste de dez anos no poder
Com a economia estabilizada e em crescimento, a inflação sob controle e indicadores sociais recuperados, o governo da FA deverá redobrar esforços para permanecer no poder. Em seus dez anos de gestão, a pobreza e o desemprego no país foram reduzidos a mínimos históricos (veja gráfico). Mas nada disso é garantia de triunfo.
— Existe um desgaste natural do partido que governa e, também, demandas insatisfeitas como o aumento da insegurança e a promessa não cumprida de uma reforma da educação — diz Mariana Pomies, analista da empresa de consultoria Cifra.
A participação dos jovens uruguaios explica, em parte, a delicada situação que atravessa a coalizão de governo. Estima-se que 9% dos eleitores do país tenham entre 18 e 22 anos; os mais velhos tinham 12 anos quando a FA iniciou seu primeiro governo.
Ciente desta realidade, Vázquez encerrou sua campanha pedindo aos jovens que perguntem a seis pais como era o Uruguai de dez anos atrás:
— Falem com seus pais, com seus avós, para que eles lhes contem como eram as condições de vida dos uruguaios. As crianças comiam grama.

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